Por um Android mais livre

Artigo retirado do site GuiadoHardware.net.

Jonathan Corbet
26/10/2009

Toward a freer Android
Autor original: Jonathan Corbet
Publicado originalmente no:
lwn.net
Tradução: Roberto Bechtlufft


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As plataformas para celulares baseados em Linux não passam de distribuições especializadas. Como acontece com outras distribuições, o sucesso ou o fracasso das plataformas para telefones depende delas conseguirem atender às necessidades de seus usuários. O Android é uma plataforma de grande destaque no momento, resultado da entrada de mais dispositivos portáteis no mercado e também das ações tomadas pelo Google em relação às distribuições derivadas dessa plataforma. Está claro que no momento o Android não atende às necessidades de todos os seus usuários, mas há mudanças em andamento que podem melhorar essa situação.

A poeira levantada pelo Google ao embarreirar o mod Cyanogen para telefones com o Android já baixou. Não dá para contestar a afirmação do Google de que o Cyanogen estava redistribuindo software proprietário de formas não permitidas pela licença. Mas várias pessoas contestaram o bom senso do Google; afinal, esses aplicativos podem ser baixados de graça em outros lugares, e só podem rodar em telefones que já vieram com uma cópia incluída. Logo, impedir sua redistribuição não traz muitas vantagens (se é que traz alguma) ao Google, e essa atitude foi um balde de água fria nas comunidades de entusiastas que promoviam o Android e tentavam aperfeiçoá-lo. Agora essas comunidades estão tentando se reagrupar e continuar com seus trabalhos, mas as regras do jogo mudaram.

Há tempos, Jean-Baptiste Queru tem sido o representante do Google mais amigo da comunidade; é evidente que ele passa bastante ajudando os outros desenvolvedores a trabalhar com o Android. Agora ele é a peça central de uma tentativa de transformar o AOSP (ou “Projeto de Código Aberto Android”) do Google em um projeto merecedor desse nome. Jean-Baptiste descobriu (meio atrasado, diga-se de passagem) qual é um dos principais obstáculos para quem deseja contribuir com a plataforma: a dificuldade de botar para rodar as alterações feitas por essas pessoas.

    O alvo principal do Android são os telefones. Isso significa que, no fundo, no fundo, permitir que os desenvolvedores façam sua parte implica em grande parte em permitir que o Projeto de Código Aberto Android seja usado em telefones. E não estou querendo dizer apenas que deve ser possível compilar e inicializar o Android neles, mas sim que é preciso que ele possa ser utilizado em um telefone no dia a dia. E no momento, isso não é possível. A variedade de aplicativos é muito limitada, nem todos os aplicativos funcionam e há algumas probleminhas esquisitos no sistema.
    Também não faz sentido esperar que todos os contribuidores tenham que aplicar o mesmo conjunto de patches manuais para obter um estado funcional básico. O certo seria o Projeto de Código Aberto Android funcionar de primeira em hardware mais difundido.

Qualquer um que já tenha tentado compilar e instalar o Android sabe que isso não é o que acontece hoje. Parte do problema está no enorme tamanho e complexidade da plataforma Android como um todo; e não há muito que se possa fazer nesse sentido. Mas até os donos daquele modelo de telefone voltado para os desenvolvedores do Android (o Android Developer Phone, ou ADP1), que obviamente esperavam poder desenvolver aplicativos para seus telefones, têm que conseguir um conjunto de componentes proprietários e incorporá-los ao pacote todo. Sem falar no problema dos aplicativos proprietários. Um Android totalmente livre não tem mapas, gmail e agenda, nem os aplicativos do Android Market ou os back-ends de sincronização que mantêm o sistema atualizado com a nave-mãe. Não dá para se virar com uma versão dessas em um telefone usado no dia a dia.

De acordo com Jean-Baptiste, é bom começar pelo hardware em que o Android funciona com facilidade: o ADP1, obviamente. Depois que os problemas com o hardware forem superados, pode ser uma boa ideia começar a conversar sobre os aplicativos que estão faltando. Mas até que os desenvolvedores possam criar com facilidade uma versão que rode em um telefone de verdade, não faz muito sentido se focar em objetivos maiores. Com a iminente chegada do AOSP 1.0, parece que a etapa preliminar está prestes a ser concluída.

Não deve ser tão difícil resolver os outros problemas. Se o aplicativo do gmail não for disponibilizado, dá para ler email por IMAP — e isso pode inspirar alguns a aperfeiçoar o aplicativo de email duro de engolir que vem com o Android. Há muita gente interessada em utilitários gratuitos para mapas, incluindo ferramentas como o AndNav, que tem potencial para superar o programa de mapas do Google. O AndNav funciona com dados do OpenStreetMap e faz navegação curva a curva, algo que a ferramenta do Google provavelmente nunca será capaz de fazer. O SlideME é oferecido como substituto gratuito ao Android Market. E por aí vai.

A parte mais difícil talvez inclua as ferramentas que exigem sincronização com os serviços do Google; esses protocolos nem sempre são abertos. Já ficou claro que o Projeto de Código Aberto Android, hospedado no Google, não vai hospedar software desenvolvido para protocolos que tenham sofrido engenharia reversa. Logo, se o Google continuar se recusando a disponibilizar os back-ends do gmail, da agenda e do Android Market, esses aplicativos simplesmente não serão suportados nas versões livres. É claro que nada impede a implementação de aplicativos que se sincronizem a serviços hospedados em outros lugares.

Outra área em que a presença do Google se faz notar no projeto é na licença:

    A (L)GPL 3 está completamente fora de questão — a indústria de celulares tem tanto medo dela que todo o ecossistema do Android seria prejudicado se código com essa licença entrasse no Projeto de Código Aberto Android.

A GPL 2 talvez possa ser permitida em componentes novos, mas dado o esforço que o Android vem fazendo para evitar software licenciado por ela, acho que vai ser difícil.

Quem procura por um projeto mais independente pode se interessar pela Open Android Alliance, que está tentando criar uma versão totalmente gratuita do Android, sem a participação do Google. A página do projeto (hospedada, ironicamente, no Google Code) afirma que os novos trabalhos serão licenciados sob a GPL 3. Parece que os desenvolvedores da OAA não estão atados à GPL 3, mas certamente há desenvolvedores que gostariam de ver alguma licença de copyleft ser usada. Se o Google não ajudar e eles tiverem que reimplementar os aplicativos, dizem eles, o certo é que o Google não possa usar o código deles e distribuí-lo em outros aplicativos proprietários.

A Open Android Alliance tem vários desenvolvedores que supostamente estão trabalhando em diversos aspectos desse problema. Mas parece que ele não têm uma lista de discussão e nem disponibilizam código algum para download. O projeto nasceu recentemente, e sua viabilidade a longo prazo ainda não pode ser determinada.

O que está claro é que as pessoas levam a sério a ideia do “telefone aberto”. Não basta jogar um monte de código em um servidor git online; muita gente quer esmiuçar os dispositivos que possui. O Google talvez esteja começando a perceber isso, embora venha tendo problemas para equilibrar a pressão da comunidade de desenvolvedores, das operadoras de celular, dos fabricantes de hardware e de seus próprios advogados. Ainda não ficou claro se essa percepção vai se traduzir em um nível de abertura suficiente no projeto Android, mas parece que as coisas estão tomando o caminho certo.

Pelo visto, a possibilidade do Linux “dominar o mundo” no mercado de telefones está ao nosso alcance. Mas quais distribuições Linux vão participar desse sucesso? Há vários telefones com o Android por aí, mas há um número ainda maior baseado em outras distribuições Linux e na plataforma LiMo. Em breve (talvez não tão “em breve” quando alguns de nós desejariam) haverá telefones com o Maemo para nós brincarmos, e não seria de se surpreender se telefones com o Moblin aparecessem num futuro não muito distante. Algumas dessas plataformas vão se sair melhor do que outras no mercado. E é bem provável que a plataforma mais aberta, que atraia o maior número de desenvolvedores interessados, seja a vencedora.

Créditos a Jonathan Corbetlwn.net
Tradução por Roberto Bechtlufft <info at bechtranslations.com.br>

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